A CASA (sobre a primeira experiência, em Maio de 2002)
José Bechara
“A Casa” é um projeto iniciado em maio de 2002, em Faxinal do Céu, município de Pinhão (PR), no curso de um encontro/residência de cem artistas plásticos organizado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná , sob a curadoria de Agnaldo Farias, Fernando Bini e Christian Viveros.
A casa (“A casa cospe”, talvez fosse possível pensar assim) tira partido de uma casa/chalé real, característica da região; uma construção de madeira constituída de sala, cozinha, banheiro e dois quartos, que servia, durante o evento, como habitação e ateliê para o artista convidado.
O projeto A casa aproveita do conceito de abrigo e procura, a partir da noção familiar de moradia, estabelecer relações físicas, metafísicas e visuais sobre o habitat, criando conexões poéticas, do interior e do exterior deste lugar.
O projeto consiste no ajuntamento dos móveis da casa, enfiados pelas janelas e portas externas. Projetando-se por essas aberturas, comprimidos uns contra os outros como grandes e pesados fardos, armários, bancos, mesas, poltronas, colchões e almofadas modificam o desenho da casa como “corpo”; isto é, modificam a forma original do objeto. Sob o ponto de vista formal, talvez o projeto apresente uma intenção escultórica, reorganizando um objeto emblemático: a casa. Nesse sentido, pode-se dizer que esse “fora” no qual são expostos os objetos do interior não é feito de forma aleatória. Segue uma ordem senão construtiva, reorganizada com método e rigor.
Do ponto de vista simbólico, o projeto apresenta uma inversão ou um desvio na memória perceptiva da moradia, que “vomita” os objetos e utensílios que lembrem presença humana, que tem sua escala. Apesar disso, ela própria, a casa, se mantém; efeito que, suponho, cria um certo grau de tensão. Uma perturbação baseada na inversão mesma da idéia de abrigo. Ao mesmo tempo em que desaloja o homem reage à condição de depósito da memória, garantia de sobrevivência psicológica.
Não se constitui o projeto uma “sócio-arte” nem uma “psicoarte”. Trata-se de trabalhar com elementos plásticos, reconstruindo e criando tensão formal, da qual a moradia, o abrigo, parece instalado com segurança emocional plástica e visualmente.
É natural reconhecer que os objetos familiares que ocupam a moradia – colchões, mesas e bancos – são formas, e por redução, formas geométricas ou geometrizantes. Por exemplo, um banco, em geral, trata-se de um círculo ou quadrado sustentado por linhas, usualmente verticais; um colchão, um retângulo.