Nas mãos do artista brasileiro José Bechara, a casa comum alcança seu
potencial de ser qualquer coisa, menos simples. Ao fazer pequenas
alterações aos elementos padrão da casa de qualquer um – a porta, a
janela, a cama, a mesa e a cadeira – Bechara desafia fundamentalmente
nossa noção de um abrigo, enquanto revela o poder simbólico que estes
elementos têm na imaginação coletiva.
A instalação de móveis “Agora Não, Por Favor” (2006) é uma boa
introdução aos recursos utilizados por Bechara para expor as bases
conceituais dos símbolos do abrigo. As linhas limpas e os tons mudos do
plástico laminado e dos móveis modernistas de madeira dos anos 60 e 70
– especialmente a grande mesa branca e redonda que fornece uma espécie
de eixo para o arranjo – facilmente se resolvem nos elementos de
composição da abstração geométrica. Eles são nada mais do que círculos
e quadrados, mas seu poder simbólico é inalterado pelo seu arranjo.
O que faz o resultado extraordinário é a capacidade de Bechara de
identificar e criar combinações destes elementos que contradizem nossas
idéias sobre como eles devem se relacionar. Um colchão, de um poderoso
e brilhante azul-petróleo que alivia o conjunto monocromático, serve
como um tipo de cama para o caos de mobiliário do artista. Mesas
emergem de escrivaninhas ou brotam de uma estante inclinada para fora
da composição em um ângulo precário. Uma lâmpada iluminada, descansando
verticalmente no topo da desordem, coroa a composição e a retira
enfaticamente do reino da possibilidade enquanto simultaneamente
confirma sua perfeita possibilidade. O bom de senso do espectador quase
exige uma intervenção que produza uma desordem menos desorientadora.
Desde as portas de vidro abertas dos armários que se espelham nas
janelas nas fotografias de Bechara até a superfície da mesa manchada de
água que ecoa na oxidação de uma escultura, o que parece ser uma
combinação estranhamente aleatória, é na verdade um guia útil para
entender os processos conceituais do artista. Uma mesa não deixa de ser
uma mesa simplesmente porque ela está apoiada num ângulo
“desconfortável” entre outros móveis também colocados em posições não
convencionais que contrariam a expectativa do espectador em relação a
seu uso. A função constantemente desafia a forma no trabalho de
Bechara. Ele começa com perguntas cujas respostas são sempre “porque” e
então fornece várias alternativas de respostas que mostram que a
resposta padrão não é inevitável.
As cinco esculturas belamente executadas expandem os desafios
sensoriais da instalação com seus retângulos perfeitos de portas e
janelas de cubos modernistas que transbordam com móveis dinamicamente
bagunçados. Os trabalhos tridimensionais, construídos com o mesmo
plástico laminado que cobre a maioria dos móveis da instalação ou com a
madeira oxidada para parecer aço, apresentam uma colisão entre as
linhas icônicas do modernismo e a realidade física da entropia.
A relativa pequena escala desses trabalhos convida a uma
intimidade; isto também provoca um forte desejo de impor um tipo de
ordem. O impulso imediato do espectador é de amaciar o cubo, de
restabelecer a linha. Porém este impulso é restrito pela constatação
que qualquer intervenção na fisicalidade do objeto levaria apenas a
mais desestabilização e desconstrução dos ideais internos que queremos
restaurar.
Num primeiro encontro, as fotografias granuladas das séries Nova e
Temporária (ambas 2004-6) parecem ser baseadas nas esculturas da
exposição. Elas são, ao invés, documentos de instalações executadas ao
redor do núcleo de um cubo do tamanho de uma casa construída dentro de
um espaço industrial cavernoso, o que gera um lugar estranho, não
específico, em que a escala mais uma vez brinca com a nossa idéia do
que é possível.
O efeito geral do trabalho de Bechara é amplificado nas fotografias
da série Paisagem Doméstica ou não me lembro do que dissemos ontem
(2002-6), onde o artista combina móveis fabricados em massa com
residências produzidas em massa num cenário suburbano de verdade.
Contra a parede exterior branca de uma casa, uma almofada bege, uma
mesa de madeira vermelha com um número de série e uma almofada verde
são projetadas de uma janela: o apropriado nome Boca assume
características quase humanas. Os títulos de duas esculturas
adjacentes, Gêmeas com sombra (2006) e Duas cabeças com amarelo (2006),
reforçam a metáfora humana.
Apesar do mobiliário caótico de Bechara ser freqüentemente descrito
como uma explosão vinda de dentro, não há evidência visual que sugira
que não possa ser uma implosão – ou que ambas as ações estejam em
curso, como se as casas estivessem respirando.
Os trabalhos de Bechara não são expressamente críticas dos ideais
da arquitetura moderna, porém é claro que suas casas não são máquinas
para serem habitadas; elas se aproximam mais de containeres permeáveis
das vidas dentro delas e de todas as complicações que a vida implica.