José Bechara

Eugenio Spinoza

Sensualidade, ou o enigma da natureza, ambos constantes da arte contemporânea brasileira estão mais que aparentes na arte de Bechara, especialmente nos seus trabalhos mais recentes que tomam o espectador de assalto com aquelas tetas de vacas espalmadas na moldura, des-substanciando a tela. Estas úberes são poderosamente expressivas em si mesmas, e bombardeiam nossos sentidos com associações eróticas. Nestes trabalhos o que se coloca é a úbere como elemento central de um objeto artístico. Uma teta bovina é mais do que o que é; tal como um seio é mais que um seio, “nada preenche a mão vazia como um seio” disse Baudrillard. Como talvez do mesmo modo, uma teta bovina preencha o vazio da pintura.
Os quadros de Bechara parecem transbordar o reino do material, substituindo a representação do objeto real ou de sua matéria. Há também implícita, a exigência técnica, que o impele à ambos, objeto e superfície da pintura, com extrema precisão. Úberes se tornam superfícies para serem tocadas visualmente, sua cor, forma, textura se tornam, férvidos, a “mensagem”. Saber que a pele não é sintética torna-a uma experiência ampla e feliz, fosse sintética geraria no lugar de tantas associações positivas uma frustração acabrunhada.
Não seria difícil ver nestas brancas e róseas tetas “cor de pele” uma nova versão do “White on White” de Malevich, se nos colocássemos sob a perspectiva das faustosas inspirações brasileiras. É lógico que se pode ver estas superfícies de pele bovina, de cor familiar, agindo como uma pintura monocrômica. A eloqüência (que persuade e comove) é uma qualidade empática que se opõe aos postulados da monocromia racional. Repentinamente, de cima e de baixo, ou pelos lados, listras sóbrias e elegantes aparecem em vermelho e branco, pintadas a óleo na tela, acompanhando o grande mosaico bovino. A conexão entre as peles e os planos geométricos é enérgica e contrastante; torna-se uma desconexão algo estéril, cada uma talvez o produto do “enamoramento com a idéia universal sem fisionomia”.
Estas diferentes posições conflitantes nos impelirão a outra conclusão que a ultrapassa e chegando cada vez mais próxima da verdade. Bechara é conhecido como um dos artistas que, ao lado de Senise, Neto, Resende e Caldas, deu continuidade a uma virada estranhíssima (venenosa, labiríntica e sobrepujante) aos problemas do neoconstrutivismo no Brasil. Poderíamos ainda dizer que Bechara busca estabelecer uma dialética entre a natureza e a razão, sustentada pela sensualidade e um humor negro de desconcertante originalidade.
Beuys ordenou ao público e aos seus alunos que desfizessem a linha que separa a arte da vida. Aquela que tem entrado em processo de extinção desde Então. Será esta a rota tomada por Bechara quando decidiu trabalhar com oxidações e peles de vaca?
Na série intitulada “Mercúrio” outro relacionamento se rompe e recria: uma postura alquímica se entrega às leis de uma escrupulosa e decrépita tradicão geométrica. Estes trabalhos, executados por meio de oxidações em panos encerados, chegam a uma coloração que não existe entre pigmentos industriais. É a paleta de ocres esquecidos, produzidos apenas pela amargura e a sabedoria do tempo. A oxidação penetra o pano e deixa sua mancha espontânea. Passo a passo, as linhas de oxidação formam uma paisagem desolada, murcha, em uma tela emaciada. A arrebatadora afluência de linhas cromáticas deterioradas pela oxidação produzem o eco progressivo de intervalos expiatórios de outrora .
Com uma voz firme Bechara proclama o poder escondido naquelas linhas horizontais e verticais. O que as inscreve, de modo inaudito, dentro da tradição neoconstrutivista que tem reinado no Brasil desde a década de 1950. Ao mesmo tempo ele se situa dentro da avalanche de gestos monumentais e proposições que caracterizam a nossa época atual.
Poderíamos nos perguntar o que aconteceria no trabalho de Bechara se ao invés do antagonismo silencioso entre tetas e linhas houvesse um inseparável e imprevisível relacionamento entre estes dois ou mais elementos, ou talvez, entre o caos e um caos maior ainda? Semelhante àquele que existe, intransponível, na natureza.
 
ArtNexus, Número 54, Volume 3, 2004
Miami, Florida
Eugenio Espinoza
Sensualidade, ou o enigma da natureza, ambos constantes da arte contemporânea brasileira estão mais que aparentes na arte de Bechara, especialmente nos seus trabalhos mais recentes que tomam o espectador de assalto com aquelas tetas de vacas espalmadas na moldura, des-substanciando a tela. Estas úberes são poderosamente expressivas em si mesmas, e bombardeiam nossos sentidos com associações eróticas. Nestes trabalhos o que se coloca é a úbere como elemento central de um objeto artístico. Uma teta bovina é mais do que o que é; tal como um seio é mais que um seio, “nada preenche a mão vazia como um seio” disse Baudrillard. Como talvez do mesmo modo, uma teta bovina preencha o vazio da pintura.
Os quadros de Bechara parecem transbordar o reino do material, substituindo a representação do objeto real ou de sua matéria. Há também implícita, a exigência técnica, que o impele à ambos, objeto e superfície da pintura, com extrema precisão. Úberes se tornam superfícies para serem tocadas visualmente, sua cor, forma, textura se tornam, férvidos, a “mensagem”. Saber que a pele não é sintética torna-a uma experiência ampla e feliz, fosse sintética geraria no lugar de tantas associações positivas uma frustração acabrunhada.
Não seria difícil ver nestas brancas e róseas tetas “cor de pele” uma nova versão do “White on White” de Malevich, se nos colocássemos sob a perspectiva das faustosas inspirações brasileiras. É lógico que se pode ver estas superfícies de pele bovina, de cor familiar, agindo como uma pintura monocrômica. A eloqüência (que persuade e comove) é uma qualidade empática que se opõe aos postulados da monocromia racional. Repentinamente, de cima e de baixo, ou pelos lados, listras sóbrias e elegantes aparecem em vermelho e branco, pintadas a óleo na tela, acompanhando o grande mosaico bovino. A conexão entre as peles e os planos geométricos é enérgica e contrastante; torna-se uma desconexão algo estéril, cada uma talvez o produto do “enamoramento com a idéia universal sem fisionomia”.
Estas diferentes posições conflitantes nos impelirão a outra conclusão que a ultrapassa e chegando cada vez mais próxima da verdade. Bechara é conhecido como um dos artistas que, ao lado de Senise, Neto, Resende e Caldas, deu continuidade a uma virada estranhíssima (venenosa, labiríntica e sobrepujante) aos problemas do neoconstrutivismo no Brasil. Poderíamos ainda dizer que Bechara busca estabelecer uma dialética entre a natureza e a razão, sustentada pela sensualidade e um humor negro de desconcertante originalidade.
Beuys ordenou ao público e aos seus alunos que desfizessem a linha que separa a arte da vida. Aquela que tem entrado em processo de extinção desde Então. Será esta a rota tomada por Bechara quando decidiu trabalhar com oxidações e peles de vaca?
Na série intitulada “Mercúrio” outro relacionamento se rompe e recria: uma postura alquímica se entrega às leis de uma escrupulosa e decrépita tradicão geométrica. Estes trabalhos, executados por meio de oxidações em panos encerados, chegam a uma coloração que não existe entre pigmentos industriais. É a paleta de ocres esquecidos, produzidos apenas pela amargura e a sabedoria do tempo. A oxidação penetra o pano e deixa sua mancha espontânea. Passo a passo, as linhas de oxidação formam uma paisagem desolada, murcha, em uma tela emaciada. A arrebatadora afluência de linhas cromáticas deterioradas pela oxidação produzem o eco progressivo de intervalos expiatórios de outrora .
Com uma voz firme Bechara proclama o poder escondido naquelas linhas horizontais e verticais. O que as inscreve, de modo inaudito, dentro da tradição neoconstrutivista que tem reinado no Brasil desde a década de 1950. Ao mesmo tempo ele se situa dentro da avalanche de gestos monumentais e proposições que caracterizam a nossa época atual.
Poderíamos nos perguntar o que aconteceria no trabalho de Bechara se ao invés do antagonismo silencioso entre tetas e linhas houvesse um inseparável e imprevisível relacionamento entre estes dois ou mais elementos, ou talvez, entre o caos e um caos maior ainda? Semelhante àquele que existe, intransponível, na natureza.
 
ArtNexus, Número 54, Volume 3, 2004
Miami, Florid

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